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Grupos criminosos armados no estado do Rio de Janeiro

O relatório do Instituto de Segurança Pública, criminalidade e violência

Em 2017 foram divulgados dados de um relatório do Instituto de Segurança Pública (ISP) sobre os “territórios controlados ilegalmente” no estado do Rio de Janeiro. Foram identificados 843 territórios sob o controle de grupos criminosos.

O relatório não teve completa publicidade, pois na verdade foi feito como um instrumento de análise para as forças policiais. Foi o primeiro estudo feito pelo governo do estado para mapear a ocupação territorial de grupos armados, e identificou não apenas favelas, mas também trechos de bairros, conjuntos habitacionais ocupados e até mesmo imóveis.

O mapeamento cobriu os anos de 2016 e 2017, consolidando informações levantadas pela Polícia Militar, pela Subsecretaria de Inteligência e pelo Disque-Denúncia.

Especialistas apontam a associação dos altos índices de letalidade violenta ao controle ilegal de territórios. A violência nestes territórios ocorre pela ação direta dos grupos criminosos que dominam o território, como o tráfico e a milícia, e também pela reação institucional do Estado, por meio da polícia.

O mapa a seguir, sobre o número de vítimas de crimes violentos em localidades dominadas por grupos criminosos, mostra bem a relação.

 Retratos da Intervenção ocupação de territórios - letalidade e território.png

 

Quais são os grupos armados que ocupam territórios no estado do Rio de Janeiro?

Os grupos armados que controlam os territórios estão envolvidos em atividades econômicas ilícitas - tráfico de drogas, transporte coletivo irregular, serviços como venda de gás, instalação de redes de TV a cabo clandestinas e até mesmo segurança.

Tráfico de Drogas

Historicamente o tráfico ocupa favelas e outros espaços pobres e segregados da cidade, onde a presença do Estado é baixa ou mesmo nula. A própria organização geográfica do espaço nas favelas favorece a ocupação dos traficantes. A favela cresce em vielas, becos, ruas estreitas de difícil acesso aos carros de polícia, e mesmo de pedestres que não conheçam os caminhos locais.

Estudiosos apontam que os grupos do tráfico começam a se constituir mais organizadamente a partir dos anos 70 e 80.

No início dos anos 80, com a chegada da cocaína à cidade, consolida-se o poder do tráfico de drogas. Este novo cenário, onde o tráfico assume uma dimensão inédita na economia, gera, já no início dos anos 90, disputas por poder dentro do Comando Vermelho, a quadrilha quase hegemônica no Rio de Janeiro até então. Das cisões nascem o Terceiro Comando e mais tarde o Amigos dos Amigos.

São estes grupos que dominam o tráfico de drogas e também a vida de milhares de pessoas.

Milícia

Com origem na polícia mineira, que matava criminosos que desrespeitavam as suas comunidades, a milícia tem sua origem na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, onde surgiu para combater assaltos e o domínio do tráfico de drogas.  Desde então vem ganhando força. Nos anos 2000, a milícia começa a tomar diversas favelas, antes ocupadas pelo tráfico de drogas.  Inicialmente as milícias eram compostas por homens ligados às forças de segurança, reformados ou na ativa – polícias Militar e Civil, Corpo de Bombeiros e até Forças Armadas.

Mas a milícia parece vir abandonando seu caráter inicial de “justiceiros” e combate ao tráfico de drogas dentro de conjuntos habitacionais e loteamentos irregulares e ilegais para dominar comunidades por meio da prestação de serviços clandestinos, que a população é obrigada a utilizar. A venda de lotes ilegais e irregulares na periferia é outra atividade das milícias, que agregam à nova moradia o bônus da segurança.

Mineira

É a velha “polícia mineira” composta geralmente por policiais moradores de comunidades pobres que, para estabelecer algum tipo de ordem, tornam-se “justiceiros”, exterminando criminosos que possam prejudicar os moradores.

Jogo do Bicho

Uma das atividades ilegais mais antigas depende também do domínio por territórios. Há divisão de áreas entre os bicheiros, que nas últimas décadas começaram a investir em máquinas caça-níqueis e transporte de van.

Suas bases territoriais estão bem organizadas e consolidadas e o respeito entre os bicheiros é uma das regras que mantém o Jogo do Bicho há décadas.

Como se distribui o crime no estado?

O relatório feito pelo ISP aponta que, das 1025 comunidades da capital do estado do Rio, 843 estão dominadas por traficantes ou milicianos.

Quadrilhas estão em 37 bairros e 165 favelas da Região Metropolitana. Na década passada, os grupos armados ocupavam 161 comunidades.

Na Região Metropolitana do estado, segundo um levantamento feito pelo G1, divulgado em março deste ano, dois milhões de pessoas vivem em áreas dominadas pelos milicianos, em onze municípios.

Retratos da Intervenção ocupação de territórios - ocupação milícia no estado do Rio.png

As doze áreas mais críticas de ocupação na cidade do Rio de Janeiro estão espalhadas na Zona Norte, Zona Sul e Zona Oeste. Rocinha, Acari, Cidade de Deus, Mangueira, Turano, Manguinhos, Parada de Lucas, Complexo do Alemão, Complexo da Maré, Jacarezinho, Santa Marta e Vila Cruzeiro. Os milicianos ocupam uma área equivalente a um quarto da cidade.

 

Unidades de Polícia Pacificadora, UPPs, e a ocupação dos territórios

As Unidades de Polícia Pacificadora foram uma estratégia do estado para a retomada dos territórios ocupados pelos grupos armadas. Mas, segundo os dados divulgados pelas forças policiais, o objetivo não foi alcançado.

Entre as doze áreas mais críticas ocupadas por criminosos – tráfico ou milícia - nove têm UPPs.

Desde 2015, as UPPs são divididas em três cores, de acordo com o grau de periculosidade da comunidade: verde, amarela e vermelha. As mais perigosas, classificadas como vermelhas, foram a Rocinha, o Complexo do Alemão, Cidade de Deus, São João e Camarista Méier. Nelas, os bandidos resistiram à ocupação permanente pela polícia e os níveis de confrontos e tiroteios são altos. Nas comunidades de bandeira amarela, existe risco operacional médio. Nas verdes, o processo de pacificação é estável. 

Na Rocinha, na Zona Sul, com uma das mais antigas UPPs, uma divisão no comando do tráfico causou confrontos, tiroteios e mortes que levaram a um cerco militar e, em grande medida, determinaram a estratégia da intervenção na Segurança Pública no Estado do Rio.

A primeira operação da Intervenção na Segurança aconteceu justamente na Rocinha, já em fevereiro.

Cabe transcrever aqui uma declaração do ex-secretário nacional de Segurança Pública, coronel José Vicente Filho, no anúncio da intervenção, pois convoca o debate sobre a relação da violência com a ocupação dos territórios por grupos armados: “um dos principais motivos da intervenção não é pelo aumento das estatísticas (criminais). Há uma qualidade da violência no Rio de Janeiro que é diferente de todo o país. Você tem centenas de comunidades dominadas pelo crime organizado. Os criminosos estão armados com armas de guerra como em nenhum local do país, talvez do mundo”.

 

Entrevistas

Entrevista 1 - Uma moradora de um bairro tradicional que viu a favela e o tráfico ocuparem seu bairro

A senhora mora aqui há muito tempo?

Moro nesta mesma casa há 55 anos. Meus filhos nasceram aqui, meus netos foram criados aqui nesse quintal. E vou lhe dizer que só saio daqui quando morrer.

Mas a senhora está muito insatisfeita com o bairro, não é?

Muito, muito. Muito triste de ver o que aconteceu aqui. Essa favela que você vê aí não existia há 10, 15 anos. Mas a favela que ficava lá do outro lado, pequeninha, foi crescendo, crescendo e tomou tudo aqui. O nosso bairro foi comido pela favela.

E o que isso significa pra senhora?

Olha, eu não tenho problema com a favela. Sei que as pessoas precisam morar em algum lugar. O que me incomoda e me tira o sono é o que veio junto. Essa molecada, a bandidagem. No outro dia mesmo, tinha gente vendendo droga ali na esquina. Imagina?! E a violência, que é o pior.

O bairro está ficando violento?

Minha filha, o bairro é quase favela, estou lhe dizendo! Então quando a polícia chega, já viu. É um corre-corre do inferno. Tiro por todo lado. No passado, teve briga entre ele, entre os bandidos e foram duas ou três semanas sem poder sair de casa, com medo. Meu filho veio me buscar e tive que sair daqui com os gatos e tudo.

A gente que vive direito, paga impostos, paga as contas, cuidou a vida inteira de uma casa, achando que no fim da vida ia ter sossego, tá vivendo isso aí. Não tem polícia, não tem escola, não tem ordem em nada.

E por que a senhora não sai daqui?

E vou pra onde? Morar com filho e nora? Essa casa, desse tamanho todo que você tá vendo, com esse quintal todo, não vale nada. Sabe por que? Por causa da favela! Quem é que vai comprar essa casa pelo que ela vale, para viver aqui nesse inferno de tiro e bandido por tudo que é lado?

 

Entrevista 2 - Moradora de favela que esse ano já foi disputada pelo tráfico, milícia e polícia

Você sabe qual é a facção que domina sua comunidade?

É o Comando Vermelho. Disso todo mundo sabe. E a gente tá cercado de Terceiro Comando. O resto das comunidades aqui é tudo do Terceiro Comando.

Tem muito conflito?

É, né? Toda hora o povo diz coisa. Que a milícia quer isso aqui, que o Terceiro vai invadir, essas coisas. Ano passado foi barra pesada aqui. Até hoje a gente não sabe se foi milícia ou polícia que tocou o terror aqui.

O que aconteceu?

Tiroteio noite e dia, polícia direto na favela. Diziam de tudo. Eu acho que foi confusão com o batalhão mesmo. Diz o povo que o tráfico não quis pagar o arrego direito e daí a polícia barbarizou.       

Arrego?

É a diária, o dinheiro que tem que pagar para a polícia. Não pagou, o pau come. Mas também tem gente que diz que essa confusão do ano passado era a milícia querendo invadir.

E o morador, como é que fica?

Morador é o marisco nessa briga. Eu tenho muito medo do Terceiro (Comando) invadir. Porque tem morador que perde tudo. Se tiver algum conhecimento, tiver feito favor, qualquer coisinha, vai pagar. Tem gente expulsa da comunidade que não pode sair com nada.

E só pode ir para outra comunidade do Comando Vermelho?

Isso. Às vezes eles ajudam. Às vezes não. Aí, só Jesus na causa.