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Segurança e insegurança no Rio de Janeiro

Nos dias 20,21 e 22 de março de 2018, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com a Datafolha, realizou uma pesquisa por amostragem na Cidade do Rio de Janeiro sobre medo, risco e vitimização da população carioca.

A amostragem contou com 1.012 entrevistas presenciais com pessoas acima de 16 anos, e foi estratificada por sexo e idade.

As pesquisas sobre percepção de medo são utilizadas, junto com os dados da criminalidade, para avaliar e medir o sucesso dos projetos e serviços da segurança pública.

1 – O medo

A sensação de medo é natural e necessária aos seres vivos. Através do medo, é possível estabelecer a noção do perigo e de defesa. As pesquisas sobre percepção de medo tentam estabelecer a relação entre a percepção do medo e os índices de criminalidade, e através desta comparação percebe-se a maior vinculação entre alguns tipos de crime e o crescimento da percepção do medo.

No Estado do Rio do Janeiro, a quantidade de tiroteios aliada ao crescimento das mídias sociais ampliou muito o acompanhamento dos casos e o conhecimento dos dramas envolvidos nas situações.

Carros em grandes vias voltando em ré, pessoas se jogando no chão protegendo com seus corpos crianças e idosos, mulheres e crianças de uniforme escolar encurraladas em vielas, trabalhadores e pessoas fora do contexto criminal veiculadas nas grandes mídias e em Facebook, whatsap etc aumentam exponencialmente a percepção do medo em todo mundo.

O aplicativo Fogo Cruzado, no dia 25 de setembro, apresentou o seguinte relatório para os 7 últimos dias:

Relatorio Fogo Cruzado.JPG

Relatório da Organização Mundial da Saúde, OMS, divulgado em fevereiro de 2017, baseado em dados de 2015, sobre depressão e distúrbios de ansiedade colocou o Brasil no topo da lista de nações com maior percentual de pessoas com algum tipo de transtorno de ansiedade: 9,3%, um índice três vezes maior do que a média mundial registrada no documento.

A preocupação excessiva com manutenção financeira e o medo frequente de ser vítima em assaltos ou tiroteios são apontados por especialistas como grandes motivadores desses transtornos de ansiedade.

2 – Os dados

A pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou que 76% das pessoas entrevistadas apoiaram a intervenção federal na segurança pública, mas dentre estes 69% acham que o Exército não fez diferença na segurança da cidade.

Os maiores medos relatados foram:

92%

 Bala Perdida

92%

 Ser ferido ou Morto em assalto

92%

 Ficar no meio de um tiroteio entre policiais e bandidos

87%

 Morrer assassinado

84%

 Ter sua casa invadida ou roubada

70%

 Sofrer violência da Polícia Militar

As maiores vitimizações das pessoas entrevistadas foram:

 75% dos entrevistados ouviram tiroteio

Destes, na estratificação morador de comunidade o percentual aumenta para 78%, e na estratificação etária, o grupo de jovens de 16 a 24 anos  tem o percentual de 86% .

  • 30% dos entrevistados ficaram no meio de tiroteios entre policiais e bandidos
  • 23% tiveram o celular roubado
  • 17,7% foi roubada ou assalta
  • 4% teve sua casa invadida ou roubada
  • 8% foram vítimas ou tiveram um parente que foi vítima de bala perdida
  • 6% foi vítima de violência da Polícia Militar

O relatório da pesquisa indica que os dados de vitimização da Cidade do Rio de Janeiro são altos e semelhantes à média nacional. O que colocaria a cidade do Rio de Janeiro num patamar mais elevado de medo é a frequente presença de grupos criminosos armados e a quantidade de confrontos armados entre eles e as forças policiais e do exército. Esses fatos explicariam o dado de que 92 % da população tem medo de ser ferido.

Medo no fim tunel.JPG

3 – Entrevistas

Entrevista com Lais, 64 anos, cuidadora de idosos, moradora da Vila Kennedy.

Laís, há quanto tempo você mora na Vila Kennedy?

 Moro há uns 20 anos. Fui pra lá quando casei.

A senhora mora com quem?

Moro sozinha no andar de baixo e no andar de cima mora minha filha, meu genro e meus dois netos.

A senhora gosta de lá?

Gosto. Meus amigos e minha história são de lá. Fui construindo minha casa aos poucos e é o que eu tenho. Tenho um quintalzinho e lá planto minhas ervas.

Como é a violência lá?

Sempre convivemos com a criminalidade. Sempre teve tráfico, gente armada e venda de drogas. Mas com o tempo o tráfico foi mudando... Quando eu era nova não tinha criança com arma. Agora, parece que entram nessa vida cada vez mais novos. Muda toda hora e já não nos conhecem mais. Nunca fui de me aproximar de traficante para pedir nada. Apesar de não gostar de conviver com armas e drogas sentia que havia algum respeito principalmente com morador antigo como eu. Depois foi mudando. Agora não tem dia nem hora para começar tiroteio. Quando está próximo do ponto de trem que desço já ligo para minha filha e pergunto: Como tá aí? Dá para ir? E no trabalho já sabem. Quando atraso já falam: ihhhh tá com tiroteio na Vila Kennedy.

E o que mudou com a presença do Exército?

Aumentaram os tiroteios. Tem quase todo dia. Lá não estava em período de paz. Mas não tinha tiroteio o tempo todo. Agora a insegurança aumentou. Eu sou contra a droga e a coisa toda do tráfico. Quero morar num lugar que esteja livre disso, mas o tiroteio me deixa apavorada. Só durmo quando todos chegam em casa e na hora que começa fico quieta, rezando.... Ensinei meus netos a só sair de blusa, calçado e com os documentos. Até para comprar pão. Para não ser confundido com vagabundo, mas mesmo com isso fico insegura. Rezando para chegarem...